terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Psiu

Está frio, está mesmo frio.
Frio e escuro, como no fundo de uma caverna, quando tudo o que se cheira é rocha e tudo o que se ouve é um tremor. Dói-me a cabeça. É nestas alturas que penso que o coração não fica onde dizem que fica, porque sei que me dói o coração.
Não, não sei há quanto tempo, o tempo aqui não existe. O tempo é para quem tem esperanças ou medos ou dinheiro a render no banco. Não, quando só se sente não há tempo, porque todo o sentimento é perpétuo, toda a dor, demasiada, a mais pequena, infinita. Transborda-me, corre-me pela cara abaixo, desliza-me pela boca fora, move-se pelos nervos nos meus dedos.
Escrevo como quem distribui panfletos. Não, ninguém te viu. Ninguém te viu. Eu sei, eles não entendem que me abandonas um pouco mais em cada lágrima, apanhas um pouco mais de ti do ar, entranhas-te mais uma vez nos meus poros. Mas eles não sabem porque não limpo as lágrimas.
"Já está quase? Ainda falta muito?"
Imagino que te ris, como água fresca de um ribeiro a cair nas folhas sonolentas, de manhã. Ris, com todos esses sons de terra e nuvem e champanhe e piano e cogumelo, olhando de esguelha desde o outro lado da sala, gozando-me subtilmente a inocência infantil. "Está quase", formam impacientemente os teus lábios, vestidos de vermelho, para depois se espreguiçarem num sorriso reguila. Provocam-me. Num amuo quase divertido, encosto-me a um canto, passo a mão pela cara, crescida da barba, assento-a depois no bolso do meu blazer, numa pretensa sobriedade que pretendo sensual. Aborreço-me, levanto-me, dou uma volta. Percorro as pessoas, como livros pousados, cada um na sua estante de biblioteca, acompanhados de outros do mesmo assunto ou do mesmo valor. Têm pó, têm páginas soltas, são amarelados ou gordos ou magros, com títulos a ouro ou escritos a lápis. Sempre me soube a saber ler. Desde então, li sempre, por vezes compulsivamente. Desde a leviandade das bandas desenhadas à erudita complexidade das grandes obras, soube seguir o caminho inverso, das letras à caneta; da caneta ao dedo, ao pulso, cotovelo, mais rápido, tão rápido que a próxima paisagem que distingo é aquela que se esconde na própria essência da alma onde, por fim, deleito os olhos e me extasio. De alma em alma, de livro em livro, sem esquecer nunca aquele estranho. Onze passos, ao fundo, à esquerda, prateleira do meio. Que estranho título compõem as letras na capa, em voltas e contra-curvas que nunca vi, produzindo significados que posso apenas quase imaginar. Olho-o atentamente, horas a fio, de fio a pavio, de olhar vazio. E fica frio, e aborreço-me da sala, e faço birra.
Cai uma lágrima. Num soluço, o cheiro do livro, um riso quente salpica-me.
Num orgulho funguento do choro, envergonhado e já bem disposto, estava só a brincar.
"Mas a sério, ainda falta muito?"

Até logo :)

4 comentários:

Maria Francisca disse...

Está giro, Miguel.
Eu via o comentário, não te preocupes.
Obrigada.
Eu sei que au revoir significa isso, foi prepositado.
É verdade, foram mais de duas semanas.
Seja do blog, seja de falarmos um com o outro.
Sim, sou. Sou uma precoce.
Beijinhos*

M. disse...

Voltaste... em grande!
Gostei imenso de ler-te aqui, agora. Fez muito sentido.
Beijinho

Trice disse...

voltaaaaa

Miss Murder disse...

Arrependeste-te do que escreves-te ?

LOL eu não sou assim tão antipática ^^