sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Uma carta de Quase São Valentim

Nunca gostei do "dia dos Namorados". Sempre o passei sozinho, no sentido conotativo da palavra, e toda a gente sabe que assistir ao cenário do dia dos namorados sozinho é pior que "As 20.000 Léguas Submarinas", de Júlio Verne, tal a parecença dos casais com as lulas gigantes a nível de sucção e enrolamento. É com este espírito que planeio enfrentá-lo, propositadamente do contra (!), mesmo contra uma tradição que, no seu âmago, é até bem bonita. Contudo hoje (?) surgiu-se-me algo. Não sei, simplesmente algo...



Princesa,

Hoje acordei em paz. Tem sido raro, nos últimos dias e, dado o estado de nervos em que me deitei, não seria de esperar. Depois do início sonolento da mesma rotina de sempre, pego no telemóvel, instintivamente. Acabo de ver que não tenho mensagens e de pousá-lo quando ouço uma vibração em cima da mesa. A sorrir interiormente por força da coincidência, leio a tua. Não me lembro o que dizia, provavelmente nada de insólito, mas ouve qualquer coisa que inchou dentro do meu peito, porque foste tu.

Saio sem pressas de casa, contudo cedo, como se ainda tivesse tempo de te ver a virar a curva, mas que não soubesses. Não quero música hoje, e só aí me dou de conta do meu verdadeiro estado de espírito. Estou feliz como há meses não me sentia, porém não demasiado feliz, alegre. O céu está de ferrolho fechado, tenho sono e frio e, ainda assim, eu hoje não condigo comigo próprio. Hoje, só combino contigo.

Na viagem, sem me aperceber, dou por mim a ouvir música, toda linda, toda alegre. Todas as letras se entranham em mim quais àgua morna numa esponja. Saio do autocarro uma paragem antes, quero levitar um pouco por aquela rua. Para mim, é esta a tua rua, e por isso estás cá dentro e lá fora, e sobes até ao céu, onde juro que se abre uma clareira exactamente por cima de mim e que se move comigo, um balão preso por nada ao pulso de uma criança. Sorrio porque mais ninguém vê o que vejo.

Ninguém, senão tu. Não me conheces, mas sabes-me e revelas-me, quase tão aos poucos que eu quase não reparo. Dou-me de conta de que te amo... não um amor explosivo, não uma paixão intensa de escarlate, mas antes um certo começo, um subtil "Era uma vez..." que não se lembra sequer do "...felizes para sempre". É amar um sonho que começa no real. Um sonho feliz, como não há meses.
Um apertozinho no estômago como já não me dispunha a acreditar, uma pressa incrível de te ver, mas não de te dizer. Pressa de que saibas, ou melhor, de que desconfies. A saudade por nunca ter sentido o teu abraço, certamente hesitante, para já, de nunca ter beijado os lábios que tremem, dormentes como se beijassem em separado e uníssono corpo e alma. A saudade necessária, e mais nenhuma.

E deixo germinar, deixo crescer. Plantaste-te no meu coração, mas não tenho a certeza de como serás, quando germinares. Sei o que espero, mas quero ter a surpresa de admitir que te amo quando te souber; não que o não saibas já, sem o saber, talvez.

A mesma dúvida que tens, também a tenho eu. E aquilo em que acreditas, aquilo que pressentes, também eu o pressinto. Sejas quem fores ou outra pessoa, agora és quem és para mim, e para mim és o potencial amor da minha vida. E mais? Não vais passar outro dia de São Valentim sozinha, nem vou eu.


Até logo

2 comentários:

Marta disse...

quanto à primeira parte do post sabes perfeitamente que sou completamente contra. as tradições só fazem sentido se realmente sentirmos o que é suposto sentir.. a 100%.. caso contrário perde toda a ''magia''.

quanto ao resto, está simplesmente genial! digamos que ao longo da carta (?) somos surpreendidos pelo desenrolar da 'história'. isso é bom, muito bom.

agora, take it easy. tudo a seu tempo. como já mencionei algures, deixa fluir! :)

beijo

Sandra disse...

estamos profundos Miguel xD

beijinhos